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O Tribunal de Contas(TC) revelou, no dia 6 de Agosto, o resultado de uma auditoria feita a unidades de saúde (podem consultar aqui). Uma das conclusões desse estudo foi qualquer coisa semelhante a: 

"Reduzir o tempo das consultas para 15min por paciente podia acabar com a falta de médicos de família"

Esta notícia do jornal Público, abordando a afirmação supra-citada foi o que me levou a reflectir sobre este tema. Sem necessidade de muita ponderação, posso afirmar que considero irrealista esta afirmação. Aliás, chega mesmo a ser desrespeitadora do trabalho dos profissionais de saúde. Se, porventura, tal medida for implementada quem realmente vai ser negligenciado são os doentes.

 

Tanto no relatório do TC como na notícia, são mencionadas algumas siglas(USFa,USFb,UCSP,etc.) cuja conhecimento detalhado penso não ser necessário para compreender o cerne do "problema". USF corresponde a Unidade de Saúde Familiar, o que normalmente designamos por "centro de saúde". 
Vão continuar a faltar médicos de família porque ainda existem zonas que não tem nenhum médico atribuído, logo mesmo que a consulta demorasse os irreais 15min o problema persistiria. Ultrapassando esta barreira,será que seria possível? 
Enquanto estudante de medicina, já tive a oportunidade estagiar num centro de saúde.Por consequência, foi-me possivel observar e acompanhar de perto o funcionamento deste tipo de consultas. O que pude constatar foi que o médico perde muito mais tempo com burocracias do que a "tratar" do doente. Compreendo que existem formalidades que tem obrigatoriamente de ser tratadas, nisso não há volta a dar. Devia era capacitar-se os profissionais de saúde com ferramentas que lhes permitissem cumprir os "tempos" (parece que estão a competir para entrar nos jogos olímpicos). Isto é, por exemplo, querer que um pc que ainda usa o windows xp seja rápido. A informatização em particular, veio ajudar em muitos aspectos mas para realmente ser funcional precisa de muitos "ajustes". O médico mesmo que tente acelarar o processo não consegue. Numa consulta dita de rotina, só para codificar os procedimentos realizados, inserir resultados de análises, pedir novos exames e passar receitas ocupam-se facilmente 7/8 min. O tempo que sobra para avaliar objectivamente o paciente, ouvir as suas queixas, educá-lo para hábitos saudáveis é muito escasso. Nas faculdades de medicina, deveria começar a insistir-se em treinos de "contra-relógio" ,como os ciclistas fazem, só dessa maneira penso ser possivel atingir os utópicos 15min/doente.
Não conheço a política que se segue para escolher o staff responsável por estas auditorias. Não tenho qualquer intenção de ofender/denegrir o trabalho de ninguém, contudo não posso deixar de achar que estas conclusões são de quem nunca esteve "no terreno". Esta opinião parece comum a outras pessoas dado que também foi explorado nesta notícia do Público. Infelizmente, o recrutamento de pessoal para trabalhar em determinadas áreas nas quais tem pouco conhecimento prático parece ser um problema transversal nos várias sectores da sociedade. Pode ser que algum dia os responsáveis "acordem". Só depois conseguiremos ser mais produtivos e eficazes na realização dos diversos projectos e iremos ter soluções satisfatórias para problemas.
Como qualquer boa discussão exite "pano para mangas", muito mais pode (e eventualmente será) dito. O bom-senso tem de imperar, tanto da parte do médico como do doente. Caso contrário, como diz o ditado, "paga o justo pelo pecador" e em vez de sermos consultados damos só um"oi" ao "shô dotor".
Até já.

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2 comentários

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De Sara Condeço a 07.08.2014 às 23:42

Antes demais, parabéns pelo texto! Acho que na discussão focaste pontos muito importantes.
Em segundo lugar, não podia deixar de comentar. Concordo plenamente com o que disseste.
Este é, de facto, um tema polémico e cada vez mais importante. E porquê? Porque cada vez mais se negligenciam não só os doentes mas também o trabalho dos médicos. É quase insultuoso exigir que os médicos atendam os doentes em 20 minutos, quanto mais em 15.
Não é benéfico nem para o doente, que não é avaliado objectivamente (lá se vão os protocolos que se aprendem na faculdade!), nem para o médico que cada vez mais pressionado pelo tempo não fará, certamente, um trabalho eficaz.
Boa continuação.
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De Etcetera a 08.08.2014 às 00:03

Tentei não me dissipar muito, mas o tema tem muito por onde se pegar. Ainda há muito mais para escrever e abordar.
A posição em que se coloca os médicos ao proferir este tipo de afirmações é muito ingrata. Quem não tem médico pensa que se pode resolver o problema com esta "solução" e pressiona ainda mais o médico para que se "despache". Não é possivel prestar um bom serviço ao doente em tão pouxo tempo.
É este tipo de feedback que me motiva ainda mais a expressar as minhas opoiniões. Um sincero obrigado por todos os caloros elogios.
Beijinhos

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Sei escrever, mas ainda não sei programar. Aguardem que isto ainda vai ficar "catita"


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